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Escritores e ilustradores revelam livros preferidos da infância

Era uma vez... Conheça os títulos que marcaram a infância de 13 craques da literatura infantil. São quase 40 títulos para você apresentar às crianças

Escritores e ilustradores revelam livros preferidos da infância

É inegável a importância da leitura de livros para a formação de uma criança. Um bom livro pode estimular a criatividade e trazer um novo mundo de possibilidades para o pequeno aprender por meio do universo lúdico dos personagens.

Esse estímulo à leitura pelos pais é tão importante que pode influenciar no futuro e despertar alguma vocação que a criança possa, mais para frente, transformar em profissão.

Foi o caso de 13 escritores e ilustradores, que nos contam aqui quais foram seus livros preferidos e o porquê dessas obras os marcarem até hoje. As dicas são excelentes para você se inspirar e, consequentemente, estimular seus filhos a mergulharem na literatura.

  • A escritora MARIA AMÁLIA CAMARGO teve vários livros que marcaram a sua infância. Daqueles que, de tão folheados, ficavam faltando um pedaço ou tinham as páginas rabiscadas.
     

“Lembro-me do Meu Primeiro Dicionário e de outros livros sobre os mistérios da natureza e do mundo animal que eu guardo, bem guardados, até hoje. Mas, de todas as histórias, minha preferida era Procurando Firme, da Ruth Rocha. Para a sorte das crianças - e dos adultos também! – este livro publicado lá nos anos 80 ainda hoje circula pelas livrarias. Com certeza, a história da princesa Linda Flor que um dia se rebelou, cortou as longas tranças e resolveu trocar os vestidos cheios de frufrus por roupas mais confortáveis inspirou a criação da princesa Emília Ercília, do meu A Ervilha que Não Era Torta (livro ilustrado pela Ionit Zilberman e lançado pela editora Caramelo). Li Procurando Firme no colégio quando tinha uns sete anos. Pouco tempo depois, eu e meus colegas da “Chave do Tamanho” (este era o nome da minha escola na cidade de Santos, litoral de São Paulo) fomos ao teatro em uma excursão bem animada, ansiosos para assistir à peça baseada no livro. Sentei bem pertinho do palco e, puxa, lembro de ter saído meio desapontada, com a certeza de que a história escrita era bem mais divertida e cheia de detalhes do que a história encenada. Bom, a partir daí, perdi a conta de quantas vezes mais li e reli as aventuras da princesa Linda Flor.”

  • SILVANA TAVANO, escritora e jornalista, não sabe quantas vezes leu Reinações de Narizinho e Os Doze Trabalhos de Hércules.
     

“Os meus preferidos eram os volumes de uma coleção da Melhoramentos, com capa dura e ilustrações feitas a bico de pena, que enfeitavam a estante de casa. Com Lobato, descobri que ler era viajar pelo reino das Águas Claras, pela mitologia da Antiga Grécia e por tantas outras aventuras. Mas foi com José Mauro de Vasconcelos que experimentei os primeiros sintomas do vício de ler: não via a hora de retomar a história e, ao mesmo tempo, queria que o livro não terminasse nunca! Foi assim com  Meu Pé de Laranja Lima, Coração de Vidro e especialmente com Rosinha, Minha Canoa (uma história de amizade que me levou para uma realidade tão diferente – o sertão de Goiás – com suas lendas e ‘causos’, e me emocionou de um jeito que nunca esqueci.”

  • JANAINA TOKITAKA, escritora e ilustradora, revelou que, quando era criança, gostava muito dos livros do autor inglês Roald Dahl.
     

“Meu preferido era, com certeza, Matilda. Lembro que sentia uma vontade imensa de ser amiga da protagonista. Matilda, como eu, também preferia uma biblioteca a qualquer lugar do mundo e sentia-se diferente por isso. Até hoje admiro essa menina que era especial não por ser bonita ou simpática, mas por ser inteligente, sensível e corajosa. Posso dizer que Matilda me ensinou a escrever minhas personagens como se pudesse entregar uma melhor amiga à cada leitor ou leitora.”

  • O ilustrador NELSON CRUZ teve uma infância simples e com poucos livros. Mas um em especial ele nunca esquece.
     

“Nos anos 60, estudei na Escola Professor Magalhães Dumont, no bairro Nova Cintra, em Belo Horizonte. Uma escola muito carente onde não havia biblioteca. Para acompanhar, na minha casa, não havia livros. Meu pai era pedreiro e minha mãe, dona de casa. Portanto, nossa economia não permitia adquirir livros. Isso era fantasia naquela época. O que eu gostava mesmo era de desenhar e brincar nas ruas de terra, correr nos matos e nadar nos riachos ainda não poluídos das proximidades. Mas, me lembro de um livro da Maria Lúcia Casasanta, intitulado As Mais Belas Histórias, que eu adorava. Era um livro obrigatório na escola, adquirido nas compras de materiais escolares, e que me encantou e me emociona ao lembrá-lo dele agora. Nele, há a história do João Felpudo, da qual nunca me esqueci. Essa lembrança permanece em mim como um baú de pirata enterrado em algum lugar do meu passado.”

  • O ilustrador e autor RENATO MORICONI tem como referência o livro Alice no País das Maravilhas.
     

“Eu não li o texto na infância, mas as imagens de John Tenniel, o primeiro ilustrador de Alice, criou um universo tão mágico que me encantou quando o conheci. Em dois livros meus faço referência à Alice, de Tenniel: o Chapéu do Chapeleiro Maluco em E A Mosca Foi Pro Espaço e O Coelho Que Segura Um Relógio Que Derrete Em Bocejo. Quando mais velho, li os textos de Carroll e sua biografia, e me apaixonei ainda mais por Alice. Sinto muito por não ter lido esse texto maravilhoso na infância.”  

  • Quando a escritora SONIA ROSA era criança, antes de entrar para a escola, ela ouvia muitas histórias contadas pela mãe do tempo em que era criancinha lá no interior da Bahia.
     

"Minha mãe inventava muitos versinhos com rimas engraçadas só para mim. Era gostoso viver aqueles momentos. Estas primeiras experiências despertaram o meu interesse para as histórias, me tornando íntima das palavras para sempre. Na escola, foi com grande alegria que encontrei nos livros de Câmara Cascudo muitas das histórias que minha mãe me contava. Eram os contos populares brasileiros registrados por esse folclorista. A partir disso, fiquei muito amiga dos livros e, desde então, as histórias e a literatura nunca mais saíram da minha vida. Entre os livros preferidos da minha infância estão: Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo (como já contei) e as histórias de Hans Christian Andersen, como O Patinho FeioA Pequena Sereia e A Princesa e a Ervilha  – pois, na escrita genial desse escritor dinamarquês, encontrei muita beleza e  encantamento recheado de pureza e inocência. Também adorava o livro As Viagens de Gulliver – porque, quando criança, me encantei com a terra dos pequenininhos e fiquei muito impressionada com o texto e com as imagens do livro (o Gulliver enorme no meio de pessoas pequeninas) e, ainda, Pinóquio, de Carlo Collodi  – o que mais me emocionou nesta história foi a paciência sem medida do pai Gepetto, além da mágica do nariz crescendo quando mentia, assim como as orelhas e o rabo de burro, que me  fizeram refletir  bastante quando era menina.” 

  • SILVANA RANDO, ilustradora que nasceu em 1972, no interior de São Paulo, tem Monteiro Lobato como peça principal que marcou sua infância com o Sítio do Picapau Amarelo.
     

“Tem também um personagem que fez toda a diferença: o Tambor. O Tambor é um coelhinho que aparece na história do Bambi, de Felix Salten, e que foi adaptado para o filme da Disney. Eu tinha meus 5 anos e era apaixonada por ele. Vivia de baixo para cima com a minha coleção de histórias da Disney. Eu gostava das histórias, mas a grande ligação, desde então, eram os desenhos. Passava horas tentando reproduzir aquele coelho tão fofo. Guardo até hoje o livro com o Tambor, que até tem algumas páginas quadriculadas a lápis, que meu irmão mais velho fazia, na tentativa de me ajudar a reproduzir o coelhinho. Acho que o Tambor me ajudou muito a descobrir a minha verdadeira vocação.”

  • A primeira lembrança que a ilustradora MARILDA CASTANHA teve ao sentir o verdadeiro encantamento por um livro foi com um exemplar de Branca de Neve.
     

“Eu era muito pequena e folheava-o durante horas. Um pouco maior, me apaixonei por Reinações de Narizinho. Eu queria morar no Sítio do Picapau Amarelo para conhecer o Reino das Águas Claras! Logo depois li Heidi (e aí quis muito morar nas montanhas cobertas de neve). Nesta época, havia também na minha casa uma coleção Ler e Saber com adaptações ilustradas de vários clássicos da literatura. Eram resumos de As Viagens de Gulliver, Viagem ao Centro da Terra, A Volta ao Mundo em 80 Dias, e eu li todos. Assim como algumas histórias de Lobato e os contos de fadas, são também histórias que povoaram minha infância.”

  • O livro que mais remete à infância da jornalista CRISTIANE ROGERIO é Raul da Ferrugem Azul, escrito pela Ana Maria Machado.
     

“Na época, a ilustração era de Patrícia Gwinner e o traço dela é uma lembrança muito forte também. Isso porque, na história, o menino começa a notar manchas azuis (na versão de Patrícia eram bolinhas) pelo corpo e, com o tempo, ele e o leitor vão percebendo que as manchas aparecem quando ele, digamos, 'engole um sapo'. A cada injustiça que ele assiste (com ele ou não), uma mancha nova surge. Isso para mim foi muito simbólico. Era o começo dos anos 80 e, embora eu não entendesse completamente, sentia o clima da ditadura militar no Brasil. Ganhei este livro da minha irmã, mas o tempo o levou de mim. Porém, há alguns anos, comprei um exemplar desta edição em um sebo e adoro ter o livro aqui perto de mim. Tenho também a versão nova, que comemorou os 25 anos, e que tem a ilustração de Rosana Faria. Hoje, para mim, ele é a prova de como a literatura, com uma boa mistura de imaginação, fantasia e delicadeza, pode, sim, semear na gente sentimentos tão importantes como o senso de justiça. Por isso, amo tanto a literatura infantil!” 

  • A autora e ilustradora PATRICIA AUERBACH sempre adorou histórias...
     

“Eu tive a sorte de ter grandes contadores na família. Por isso, as primeiras narrativas que marcaram minha infância foram contadas ‘de boca’ por avós e bisavós. Eram causos do passado deles, lembranças de um tempo em que a vida era muito diferente da minha. Depois disso, quando eu já tinha meus 9 ou 10 anos, me apaixonei por três histórias bem especiais. A primeira, Bisa Bia Bisa Bel, tem muito a ver com o meu encantamento pelas histórias de antigamente. No livro, Ana Maria Machado fala da amizade entre uma menina e sua bisavó e constrói os diálogos de um jeito tão doce que faz a gente querer viver aquela história de verdade. Logo em seguida, vieram Pollyanna, de Eleanor H. Porter, e O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. São três livros clássicos, de grandes autores, e durante muito tempo eu tentei entender porque eles tinham sido tão importantes pra mim. Aí, relendo os livros, percebi que os personagens centrais das três obras têm muito em comum. Os três são supercriativos e todos eles usam a imaginação para tornar a vida mais leve e divertida, mesmo nos momentos difíceis. Acho que foi isso que fez com que eles se tornassem parte da minha própria história, quase como se fossem meus amigos de infância. E assim como a Bel, a Pollyanna e o Zezé, eu também adoro inventar histórias e personagens pra deixar a minha vida cada vez mais colorida e feliz!”

  • O livro que marcou a infância do escritor TINO FREITAS foi A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen.
     

“Eu devia ter entre 7 e 10 anos e me lembro bem que era uma edição com folhas cartonadas, capa com uma ilustração que mudava de acordo com a posição do livro (supermoderna para a época), publicada pela Record ali pelo final dos anos 70, começo dos anos 80. Uma história clássica, escrita há quase 200 anos, ambientada no Natal (uma época em que a maioria das pessoas está feliz), mas com um final que não reflete essa tal felicidade. Li, reli, treli. Me marcou tanto que, anos depois, escrevi, intuitivamente, uma história que tem em sua essência essa emoção forte e incomum de, quando criança, ler uma história com um final triste (Primeira Palavra, ilustração de Elvira Vigna, pela Abacatte). Hoje, é mais difícil encontrar essa história em uma edição própria. Portanto, recomendo para as crianças o livro  Histórias Maravilhosas, de Andersen, uma compilação com nove histórias ilustradas e com tradução de Heloisa Jahn, publicada pela Companhia das Letrinhas. Para os adultos, indico Contos, de Hans Christian Andersen, com todas as histórias do autor traduzidas diretamente da sua língua, o dinamarquês, por Silva Duarte e publicadas pela editora Paulinas (nesse livro, o título do conto é A Menininha dos Fósforos).”

  • A infância e juventude do ilustrador FERNANDO VILELA foram permeadas por muitos quadrinistas brasileiros de várias gerações, como Laerte, Angeli, Glauco, Luiz Gê, Henfil, e pelos estrangeiros Frank Miller e Moebius.
     

“Os livros Flicts e O Menino Maluquinho, ambos de Ziraldo, me marcaram muito. Dos juvenis, posso citar A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, e Sangue Fresco, de João Carlos Marinho.”

  • ANDRÉ NEVES, ilustrador e autor de livros, recorda de alguns títulos em especial.
     

A Gema do Ovo da Ema, Os Bichos que Tive, A Vaca Mimosa e A Mosca Zenilda, Cabidelim e O Doce Monotrilho, entre tantos outros com títulos fantásticos. Lembro-me também do livro grande, com muitas páginas de capa amarela. O Livro das Virtudes para Crianças, de Willian J. Bennet, bom de ler. Além de O Reizinho Mandão, da Ruth Rocha.”